Opinião: Por que não faz sentido um cristão se dizer sionista
- Prof. João Inocêncio

- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Introdução
Nos últimos anos, tornou-se comum ver cristãos — inclusive católicos — declararem apoio explícito ao sionismo, muitas vezes por motivos religiosos. Essa associação, porém, revela uma confusão teológica profunda. À luz da doutrina católica, da leitura cristã das Escrituras e da própria história da salvação, não faz sentido um católico se identificar como sionista sem contradizer elementos centrais da fé que professa.
Este artigo não é um ataque ao povo judeu — que a Igreja respeita e com quem compartilha raízes espirituais profundas —, mas uma análise clara da incompatibilidade entre o catolicismo e o sionismo enquanto ideologia político-religiosa.
1. O que é o sionismo (em termos essenciais)
O sionismo é uma ideologia moderna (século XIX) que defende:
o direito exclusivo do povo judeu a uma terra prometida,
a restauração nacional de Israel como cumprimento de promessas bíblicas,
uma leitura não cristológica das Escrituras.
Mesmo em suas formas não religiosas, o sionismo carrega uma teologia implícita:a de que as promessas feitas a Israel permanecem válidas como promessa nacional e territorial, independentemente de Cristo.
É aqui que surge o conflito com a fé católica.
2. Para o catolicismo, as promessas se cumprem em Cristo
A doutrina católica ensina claramente:
Jesus Cristo é o cumprimento definitivo da Lei, dos Profetas e das promessas feitas a Israel.
Isso não é uma invenção tardia, mas o coração do Novo Testamento:
“Todas as promessas de Deus encontram nele o seu ‘sim’.” (2Cor 1,20)
“Não é judeu quem o é exteriormente (…) mas o que o é no interior.” (Rm 2,28-29)
“Não há mais judeu nem grego (…) pois todos sois um em Cristo.” (Gl 3,28)
➡️ Para o catolicismo:
a Terra Prometida aponta para o Reino de Deus,
o povo eleito se cumpre na Igreja,
a aliança antiga encontra sua plenitude na Nova Aliança.
Defender uma promessa territorial, étnica e política como ainda teologicamente vinculante é retroceder antes de Cristo.
3. O problema teológico do sionismo para um católico
Quando um católico se diz sionista, ele implicitamente afirma ao menos uma dessas ideias:
que a promessa da terra não se cumpriu em Cristo;
que o povo judeu permanece como povo eleito à parte da Igreja;
que a história da salvação não se universalizou.
Isso entra em choque direto com o Catecismo e com o magistério constante da Igreja.
A Igreja ensina:
❌ não existe dupla via de salvação (uma judaica e outra cristã);
❌ não existe promessa paralela não mediada por Cristo;
❌ não existe povo eleito fora da Nova Aliança.
4. A leitura judaizante rejeitada pela Igreja primitiva
Desde os primeiros séculos, a Igreja combateu o judaísmo cristianizado (judaizantes), que tentava:
manter categorias antigas como ainda normativas,
submeter o Evangelho à Lei mosaica,
negar a ruptura escatológica da cruz.
O sionismo religioso moderno é, sob vários aspectos, uma ressurreição desse erro, agora aplicado à política internacional.
São Paulo foi duríssimo com isso:
“Se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu em vão.” (Gl 2,21)
Um católico não pode afirmar, ainda que indiretamente, que Cristo foi insuficiente para cumprir as promessas.
5. A Igreja NÃO endossa o sionismo religioso
É importante deixar claro:
A Igreja reconhece o Estado de Israel como fato político, não como cumprimento profético.
O Vaticano nunca declarou o sionismo como teologia válida.
Documentos como Nostra Aetate promovem o respeito ao judaísmo, não a validação de sua leitura messiânica.
Respeitar judeus ≠ adotar sua escatologia.
6. O erro moral de sacralizar um projeto político
Outro problema grave é teológico-moral.
Quando um projeto político é revestido de linguagem bíblica:
a crítica moral é silenciada,
injustiças são justificadas “em nome de Deus”,
vidas humanas se tornam meios.
A doutrina católica rejeita isso frontalmente:
Nenhum Estado, povo ou nação possui mandato divino para violar a dignidade humana.
Cristo não fundou um reino territorial.Cristo não prometeu supremacia étnica.Cristo não legitimou violência sagrada.
7. A contradição final: Caifás e o “princípio sionista”
Retomando a passagem discutida anteriormente (Jo 11,49-52):
“Convém que morra um só homem pelo povo.”
Essa lógica:
é política,
é utilitarista,
é condenada pela Igreja.
Curiosamente, é a mesma lógica que sustenta ideologias sacralizadas, onde indivíduos são sacrificados em nome da sobrevivência nacional.
O Evangelho não legitima essa lógica — ele a denuncia.
Conclusão
Um católico pode:
defender a dignidade de judeus e palestinos,
apoiar soluções diplomáticas,
condenar o antissemitismo,
reconhecer Estados no plano político.
Mas não pode, sem incoerência grave:
adotar o sionismo como ideologia religiosa,
tratar promessas bíblicas como ainda não cumpridas em Cristo,
sacralizar um projeto nacional à margem do Evangelho.
👉 O catolicismo é cristocêntrico, não etnocêntrico.👉 A promessa não é uma terra — é uma Pessoa.
“O meu Reino não é deste mundo.” (Jo 18,36)
E isso, para um católico, deveria encerrar a questão.


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