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Opinião: Por que não faz sentido um cristão se dizer sionista

Introdução


Nos últimos anos, tornou-se comum ver cristãos — inclusive católicos — declararem apoio explícito ao sionismo, muitas vezes por motivos religiosos. Essa associação, porém, revela uma confusão teológica profunda. À luz da doutrina católica, da leitura cristã das Escrituras e da própria história da salvação, não faz sentido um católico se identificar como sionista sem contradizer elementos centrais da fé que professa.

Este artigo não é um ataque ao povo judeu — que a Igreja respeita e com quem compartilha raízes espirituais profundas —, mas uma análise clara da incompatibilidade entre o catolicismo e o sionismo enquanto ideologia político-religiosa.


1. O que é o sionismo (em termos essenciais)


O sionismo é uma ideologia moderna (século XIX) que defende:

  • o direito exclusivo do povo judeu a uma terra prometida,

  • a restauração nacional de Israel como cumprimento de promessas bíblicas,

  • uma leitura não cristológica das Escrituras.

Mesmo em suas formas não religiosas, o sionismo carrega uma teologia implícita:a de que as promessas feitas a Israel permanecem válidas como promessa nacional e territorial, independentemente de Cristo.

É aqui que surge o conflito com a fé católica.


2. Para o catolicismo, as promessas se cumprem em Cristo


A doutrina católica ensina claramente:

Jesus Cristo é o cumprimento definitivo da Lei, dos Profetas e das promessas feitas a Israel.

Isso não é uma invenção tardia, mas o coração do Novo Testamento:

  • “Todas as promessas de Deus encontram nele o seu ‘sim’.” (2Cor 1,20)

  • “Não é judeu quem o é exteriormente (…) mas o que o é no interior.” (Rm 2,28-29)

  • “Não há mais judeu nem grego (…) pois todos sois um em Cristo.” (Gl 3,28)

➡️ Para o catolicismo:

  • a Terra Prometida aponta para o Reino de Deus,

  • o povo eleito se cumpre na Igreja,

  • a aliança antiga encontra sua plenitude na Nova Aliança.

Defender uma promessa territorial, étnica e política como ainda teologicamente vinculante é retroceder antes de Cristo.


3. O problema teológico do sionismo para um católico


Quando um católico se diz sionista, ele implicitamente afirma ao menos uma dessas ideias:

  • que a promessa da terra não se cumpriu em Cristo;

  • que o povo judeu permanece como povo eleito à parte da Igreja;

  • que a história da salvação não se universalizou.

Isso entra em choque direto com o Catecismo e com o magistério constante da Igreja.

A Igreja ensina:

  • ❌ não existe dupla via de salvação (uma judaica e outra cristã);

  • ❌ não existe promessa paralela não mediada por Cristo;

  • ❌ não existe povo eleito fora da Nova Aliança.


4. A leitura judaizante rejeitada pela Igreja primitiva


Desde os primeiros séculos, a Igreja combateu o judaísmo cristianizado (judaizantes), que tentava:

  • manter categorias antigas como ainda normativas,

  • submeter o Evangelho à Lei mosaica,

  • negar a ruptura escatológica da cruz.

O sionismo religioso moderno é, sob vários aspectos, uma ressurreição desse erro, agora aplicado à política internacional.

São Paulo foi duríssimo com isso:

“Se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu em vão.” (Gl 2,21)

Um católico não pode afirmar, ainda que indiretamente, que Cristo foi insuficiente para cumprir as promessas.


5. A Igreja NÃO endossa o sionismo religioso


É importante deixar claro:

  • A Igreja reconhece o Estado de Israel como fato político, não como cumprimento profético.

  • O Vaticano nunca declarou o sionismo como teologia válida.

  • Documentos como Nostra Aetate promovem o respeito ao judaísmo, não a validação de sua leitura messiânica.

Respeitar judeus ≠ adotar sua escatologia.


6. O erro moral de sacralizar um projeto político


Outro problema grave é teológico-moral.

Quando um projeto político é revestido de linguagem bíblica:

  • a crítica moral é silenciada,

  • injustiças são justificadas “em nome de Deus”,

  • vidas humanas se tornam meios.

A doutrina católica rejeita isso frontalmente:

Nenhum Estado, povo ou nação possui mandato divino para violar a dignidade humana.

Cristo não fundou um reino territorial.Cristo não prometeu supremacia étnica.Cristo não legitimou violência sagrada.


7. A contradição final: Caifás e o “princípio sionista”


Retomando a passagem discutida anteriormente (Jo 11,49-52):

“Convém que morra um só homem pelo povo.”

Essa lógica:

  • é política,

  • é utilitarista,

  • é condenada pela Igreja.

Curiosamente, é a mesma lógica que sustenta ideologias sacralizadas, onde indivíduos são sacrificados em nome da sobrevivência nacional.

O Evangelho não legitima essa lógica — ele a denuncia.


Conclusão


Um católico pode:

  • defender a dignidade de judeus e palestinos,

  • apoiar soluções diplomáticas,

  • condenar o antissemitismo,

  • reconhecer Estados no plano político.

Mas não pode, sem incoerência grave:

  • adotar o sionismo como ideologia religiosa,

  • tratar promessas bíblicas como ainda não cumpridas em Cristo,

  • sacralizar um projeto nacional à margem do Evangelho.

👉 O catolicismo é cristocêntrico, não etnocêntrico.👉 A promessa não é uma terra — é uma Pessoa.

“O meu Reino não é deste mundo.” (Jo 18,36)

E isso, para um católico, deveria encerrar a questão.

 
 
 

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