Human Capital: Da contabilização da vida humana à Dignidade Humana no Trabalho
- Prof. João Inocêncio

- 23 de fev. de 2023
- 7 min de leitura

Nesse ano de 2023, apesar da correria da vida, já passamos por duras penas as quais queremos esquecer, dentre elas a pandemia de COVID-19, que nos colocou à frente questões como a brevidade da vida (ou assim também denominada efemeridade), me veio à mente o poema de Hipocrates (esse grego mesmo! o inventor da medicina) popularizada pelo Romano Sêneca (de vita brevis)
A vida é breve,
a arte é longa,
a oportunidade passageira,
a experiência enganosa,
e o julgamento difícil.
A possibilidade de ter a morte ao alcance imediato e fácil colocou os pobres e ricos na mesma categoria, havia hospitais, porém lotados, não havia remédios nem vacinas eficazes, o que nos restou aguarda, confinados em casa, pela morte pela visita ou não do anjo da morte do livro do Êxodo.
Diante do clima desolado das primeiras semanas da Pandemia, que tantos são os que simplesmente querem esquecer, o que fizemos? Qual nosso legado para a humanidade (ou o que restaria dela)? Que tal nossos filhos, pais, irmãos, primos, amigos... será que aproveitamos o que havia da brevidade da vida?
Ligar a tevê num noticiário não era algo exatamente saudável, a imprensa como toda a empresa que deseja gerar lucro em período alta procura por anúncios, tratou de engordar sua fatura vendendo cotas de publicidade realizada em meio ao circo (mais para circo romano, com os gladiadores sendo os médicos, enfermeiros, doentes, políticos ora oportunistas ora demagogos) decidi fazer algo diferente, resolvi naufragar na literatura, decidi ler A Montanha Mágica do Thomas Mann, livro antigo porém atual.

O Romance trata de figuras bem estereotipadas, que estão 'presas' num hospital isolado nos alpes suíços, havendo nesse caldeirão os personagens um Judeu (convertido ao catolicismo) Naphta, um Maçom Setembrini, nosso heroi (que ao que se passa estava de passagem) e um apirante à oficial no exercito prussiano (Tenente). O que une todos nesse hospital é uma doença da tuberculose para a qual não havia cura (temos similaridade com o que estava se desenrolando?) Assim como nós aqui no mundo real estavamos a buscar respostas para a vida entre uma nóticia do apocalipse e outra, aquelas pessoas estavam no mesmo estado, porém confinadas por questões médicas.
Tal como eles lá, nossa vida foi pausada pela peste bubônica da nossa era, inertes, alguns decidiam procurar uma razão para tudo na fé, outros na caridade, já tantos outros na busca da razão de viver no impichamento de políticos e um reset global (rearranjo da nossa sociedade como um todo), daí surgiram os vendedores de teorias da conspiração e dominação política, cada um vendendo o seu peixe no mercado do desastre.

A vida é breve! a Oportunidade é passageira! pois bem! o que há passou, passou, agora era esperar a hora da morte! mas se o tal julgamento é tão difícil como disse hipócrates, como nos reinventar para morrer em sanidade quando tudo o que se passou era fazer parte de um sistema produtivo e não pensar muito nessa derradeira hora quando a dona da morte está ali do lado, impaciente, olhando o relógio se apoiando numa foice para levar a todos?

Isso leva a pensar o conceito de qualidade de vida do ser humano, o que as pessoas que tiveram uma parada forçada pela força das autoridades públicas (lockdown) de forma súbita. Eu estava como recém casado (março de 2020) quando já se falava em pandemia, porém no Brasil as coisas só são levadas em conta quando passam na tevê em clima de guerra mundial e os políticos então resolvem tomar alguma providência (estou errado?)
O que é essa coisa chamada qualidade? Uma referência amplamente utilizada para definir qualidade é a Norma ISO 9000, que estabelece os requisitos para sistemas de gestão da qualidade. Que a tal ISO 9000 de 2015, qualidade seria "o grau em que um conjunto de características inerentes atende aos requisitos". Esses requisitos podem ser definidos pelos clientes, pela legislação, pelas normas técnicas, entre outros critérios relevantes. A ISO 9000 enfatizaria a importância da satisfação do cliente como um dos principais objetivos da gestão da qualidade.
Será que isso se amolda na vida humana? críticas bandoleiam que não, um ser humano não poderia ser qualificado por uma norma técnica... será mesmo? O Capital humano, como é chamado nos circulos de estatística demográfica
Qualidade é um conceito que se refere a um conjunto de características e atributos de um produto, serviço ou processo que o tornam adequado para atender às necessidades e expectativas dos clientes ou usuários. Essas características e atributos podem incluir a durabilidade, a confiabilidade, a eficiência, a eficácia, a segurança, a usabilidade, entre outros fatores relevantes para a satisfação do cliente e é determinada pelos requisitos e padrões estabelecidos... legislação, pelas normas, regulamentos e práticas aceitas pelo mercado e a melhoria contínua da qualidade é um objetivo comum de muitas organizações, e pode ser alcançada por meio de processos de avaliação, planejamento, implementação e monitoramento de práticas de gestão da qualidade.
Se se aplicamos esses conceitos ao ensino tecnicista desde a época do jesuísmo educacional brasileiro (desde o século XVI), a educação jesuíta teve como base os valores cristãos e a aprendizagem da língua, tanto do latim como das línguas indígenas. Os padres jesuítas se dedicaram a aprender a língua dos índios para estabelecer uma comunicação efetiva e assim poder converter os nativos ao cristianismo.
Além disso, os jesuítas usavam a música e a arte como metodologia de ensino, pois perceberam que os nativos respondiam melhor a essas atividades do que a metodologia de ensino tradicional europeia. Com o objetivo de converter e civilizar (à moda europeia) os índios, os jesuítas também fundaram escolas e universidades, onde se ensinava as disciplinas tradicionais como matemática, filosofia, teologia e literatura, bem como a catequese e os valores cristãos. Desde lá veremos que a preocupação de ensinar uma profissão foi alçada de parte do currículo escolar para se tornar a própria existência humana, utilitarista ao extremo, onde você é o que você produz e nada além disso.
Tal como os produtos na prateleira do mercado somos parte de um resultado de operações complexas sociais para possamos ser contabilizado como capital humano de uma demografia cinzenta e impessoal. Alguns tentam fugir compondo a contracultura, porém tal como o ateísmo ou comunismo, a contracultura não busca uma essência autêntica mas negar algo que está imposto e bem 'qualificado' por toda a sociedade. É expectativa do mercado que haja profissionais qualificados para que os investimentos retornem na forma de lucros.
Quando se trata de avaliar o valor de um indivíduo em termos de capital humano. Algumas pessoas argumentam que o capital humano é uma abordagem simplista que reduz a vida humana a um conjunto de habilidades e qualificações técnicas, ignorando outros aspectos importantes, como a personalidade, a experiência e as relações interpessoais.
o capital humano é uma forma de medir a capacidade de um indivíduo para contribuir para a sociedade, e pode ser uma ferramenta útil para avaliar o potencial de desenvolvimento humano. Ao reconhecer a importância das habilidades e conhecimentos adquiridos por meio da educação, treinamento e experiência, podemos ajudar a promover o desenvolvimento pessoal e profissional dos indivíduos e aumentar sua capacidade de contribuir para a sociedade.cada indivíduo é único e valioso em sua própria maneira, e que a avaliação do capital humano deve ser apenas um aspecto da forma como valorizamos as pessoas e suas contribuições para a sociedade.
Devemos nos esforçar para valorizar e respeitar cada pessoa como um ser humano único e integral, com habilidades e experiências que vão além de qualquer medida técnica.
Não pretendo desconstruir a sociedade de mercado nem pregar sua extinção e um modelo alternativo onde todos vivam de luz! A crítica existe para o significado que possui - Julgar, apreciar a qualidade, questionar postulados... pois bem, se é uma verdade que o ser humano também é submetido, racionalmente (ainda que inconsciente da totalidade), a uma espécie de conhecimento enlatado num conceito gnostico como o "american way of life" (estilo de vida americano) é igualmente capaz de ser distinto dos demais procurando razões transcendentais que não somente a profissão e ganhar mais dinheiro, a existência é maior que o a fome insaciável ao dinheiro (como diria virgilio: auri sacra fames) que se torna segundo São Paulo, a raiz de todos os males! (radix enim omnium malorum - I Tim 6, X, Vulgata).
A Razão da vida humana foi questionada numa crise sanitária, de um lado havia o apocalipse político e as brigas oportunistas dos políticos e do outro lado da equação estavam nossas vidas no cárcere, daí uma vez que houve o relaxamento das medidas hospitalares emergiu o movimento woke (do inglês, acordado, desperto) que procura questionar o mercado à moda ocidental e tenta ressuscitar a contracultura. A resposta para a crise do capital humano merece resposta complexa a considerar a dignidade do trabalho humano, como escreveu Leão XIII (Rerum Novarum) e posteriormente São João Paulo II no Laborem Exercens.
"Laborem Exercens" é uma carta encíclica escrita pelo Papa João Paulo II em 1981, abordando a dignidade do trabalho humano e os desafios que os trabalhadores enfrentam na sociedade moderna. O Papa destaca a importância do trabalho como uma expressão da dignidade humana e exorta os empregadores a respeitarem os direitos dos trabalhadores. Ele também fala sobre o papel da Igreja na defesa dos direitos dos trabalhadores e na promoção da justiça social. São portanto alguns tópicos a serem considerados a exemplificar:
Preservação da Dignidade da vida e trabalho humano, que são inclusive pilares da ordem constitucional positivada no Brasil.
A garantia de que os direitos fundamentais serão preservados como a qualidade de vida e a liberdade artística e religiosa.
A manutenção da harmonia social por meio de programas sociais, com parcerias da sociedade pública, para lutar contra a pobreza e elevar o padrão de uma sociedade tão desigual.
Que para além de estatísticas, seja o ser humano o centro da preocupação social, na ocasião em que o trabalho não seja mais uma forma de exploração cega mas que atinja seu objetivo que é uma forma de expressão do indivíduo.
Em conclusão, é fundamental que a preocupação social esteja centrada no ser humano e não apenas em estatísticas. O trabalho, que muitas vezes foi usado como uma forma de exploração cega, deve ser visto como uma forma de expressão do indivíduo. Para alcançar esse objetivo, é importante que os empregadores respeitem os direitos dos trabalhadores e que a sociedade como um todo se comprometa a promover a justiça social e a proteção dos direitos humanos. É hora de repensar a forma como valorizamos o trabalho e as pessoas que o realizam, e garantir que o trabalho seja uma fonte de realização pessoal e dignidade para todos.


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